PISA 2025 e IA: o dado que a manchete brasileira cortou pela metade

O Dani Geek — arte original
A OCDE mediu, pela primeira vez, para quê o aluno usa chatbot. Duas leituras circularam no Brasil, “IA piora as notas” e “use com moderação e você melhora”, e a tabela não sustenta nenhuma das duas. O que ela separa é a IA que te ajuda a entender da IA que entrega o produto no seu lugar.
Em 8 de setembro de 2026 a OCDE divulgou o PISA 2025: cerca de 760 mil alunos de 15 anos, 91 países e territórios, avaliados em leitura, matemática e ciências (press release da OCDE). A manchete global foi a queda geral, o pior desempenho médio já registrado na série. No Brasil, a manchete foi outra: “estudar com IA piora as notas” (Exame, Olhar Digital).
O número por trás dessa manchete existe e é grande. Quem usa chatbot quase todo dia para redigir trabalhos escolares marcou 481 em ciências. Quem nunca ou quase nunca usa marcou 509 (blog da OCDE sobre IA). São 28 pontos, o equivalente a algo perto de um ano e meio de escolaridade na régua do próprio PISA.
Aí a discussão brasileira se dividiu em dois times, e os dois estão errados.
O que o relatório mede quando pergunta “para quê”
A novidade metodológica do PISA 2025 é que o questionário separou os usos, em vez de parar em “você usa IA, com que frequência”. Ele perguntou: você usa para resumir uma leitura obrigatória, para fazer pesquisa preliminar sobre um tema novo, para redigir o trabalho, para te ajudar a aprender.
O dado que sai daí não bate com nenhuma das duas narrativas que circularam.
Nos três primeiros usos (resumir, pesquisar, redigir), quem não usa IA tem a melhor média de todos os grupos de frequência. A distância maior aparece justamente em resumir a leitura obrigatória, onde o usuário diário fica cerca de 30 pontos abaixo de quem não usa (Volume I, capítulo sobre a vida escolar do aluno).
Num único uso o quadro se inverte: “me ajudar a aprender”. Nesse, o aluno de uso semanal aparece na frente, com o não-usuário logo abaixo.
Por que “use com moderação” também é leitura errada
A reação natural à manchete foi dizer que o problema é o excesso, e que o uso moderado ganha dos dois lados. Não é o que está na tabela.
Primeiro, a faixa que empata com o não-usuário é estreita: uso semanal, uma ou duas vezes por semana. Uso ocasional, duas vezes por mês ou menos, também fica abaixo de quem não usa. Quem junta “uma vez por mês” na faixa vencedora está colando um grupo perdedor no grupo que empata.
Segundo, o recorte mais duro é o ajuste. Controlando o perfil socioeconômico do aluno, o usuário semanal fica no mesmo patamar do não-usuário, não acima. A Fortune colocou isso no próprio título em 11 de setembro: quem usa uma ou duas vezes por semana tem desempenho parecido com quem não usa.
Terceiro, e isso vale para qualquer número que você leia sobre este relatório: a OCDE afirma explicitamente que os achados sobre IA são associações, não efeitos. Quem usa chatbot todo dia pode diferir do colega em motivação, em desempenho anterior, em apoio disponível em casa, no tipo de tarefa que a escola manda fazer. O dado não diz que a IA causou os 28 pontos. Se você trocar a manchete pessimista por uma otimista usando a mesma tabela sem esse cuidado, cometeu o mesmo erro com o sinal invertido.
O que o relatório sustenta é modesto e útil: uso quase diário aparece junto com desempenho pior; uso semanal empata com não usar.
A variável não é frequência. É o que você terceirizou.
Se você trabalha com conhecimento, a tradução dessa tabela para o seu dia é direta, e não passa por “usar menos”.
Repare no que separa os quatro usos do questionário. Resumir a leitura, fazer a pesquisa preliminar e redigir o texto têm uma coisa em comum: em todos os três, a IA devolve o produto. O resumo pronto, os links já filtrados, o parágrafo já escrito. “Me ajudar a aprender” é o único em que a saída da IA não é entregável: é explicação, exemplo, correção, uma segunda passada sobre o que você já tentou entender.
Qual etapa você acelera importa menos do que isto: a IA te ajudou a entender ou entregou o produto no seu lugar?
Andreas Schleicher, que coordena o PISA, resumiu o mecanismo numa frase que vale colar na parede: aprender não acontece consumindo conteúdo, mas no esforço produtivo da cabeça diante de material novo (Euronews, 10/09/2026). Na mesma entrevista ele diz que onde a tecnologia curto-circuita esse esforço, ela prejudica o desenvolvimento do aluno, e que a IA precisa ser um apoio, não uma muleta.
Troque “aluno” por “profissional” e a frase continua de pé. O resumo que você leu no lugar do relatório não virou seu. A pesquisa que a IA filtrou define o que você vai considerar e o que nunca vai saber que existia.
O mesmo padrão aparece em quem já trabalha
Uma pesquisa da Microsoft Research com a Carnegie Mellon ouviu 319 profissionais que usam IA pelo menos uma vez por semana, sobre 936 tarefas reais, e achou a mesma curva: quanto maior a confiança na ferramenta, menos pensamento crítico o profissional aplica (PDF do estudo). O trabalho não desaparece, ele migra: de produzir para conferir a saída da máquina.
Um adolescente de 15 anos que manda o chatbot resumir o capítulo e um analista que manda o chatbot resumir o relatório estão na mesma posição estrutural. Os dois trocaram o esforço de entender por um texto de qualidade razoável que passou pela cabeça de outra pessoa.
O achado mais acionável do relatório vem daí. Entre os usuários frequentes, quem foi ensinado a avaliar a qualidade da informação gerada por IA teve desempenho melhor do que o usuário frequente que não recebeu essa orientação: 14 pontos em ciências, perto de meio ano de escolaridade. A OCDE não registra, então, um pedido de abstinência: registra que a orientação sobre como julgar a saída muda o resultado.
O contexto brasileiro que quase ninguém publicou
O Brasil marcou 408 em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências. Variação em relação a 2022 sem significância estatística: na prática, estável, e abaixo da média da OCDE (INEP). Vale registrar o outro lado desse número, que também não virou manchete: o Brasil está entre os países que mais avançaram desde 2006, 7º lugar em leitura e matemática (nota-país da OCDE).
Há um dado do relatório que conversa diretamente com o de IA e é mais fácil de agir: mais de 1 em cada 4 alunos diz que os colegas se distraem com dispositivos na maioria ou em todas as aulas de ciências, e quem estuda cercado de colegas distraídos vai pior e se sente menos ligado à escola (OCDE). A ferramenta não precisa estar na sua mão para atrapalhar você.
A pergunta que fica
O PISA mediu quatro usos porque dava para perguntar. No trabalho, ninguém aplica questionário: você decide sozinho, várias vezes por dia, quando manda o chatbot resumir e quando lê. O relatório entrega o critério, não o hábito.
Se o ganho de 14 pontos veio de ser ensinado a avaliar a saída, então a habilidade que a escola está tentando instalar nos alunos é a mesma que nenhuma empresa está treinando em ninguém. O profissional que usa IA todo dia aprendeu a operar a ferramenta olhando vídeo. Aprendeu a desconfiar dela com quem?
Se você tem uma resposta, ela me interessa mais do que o relatório. Estou no @odanigeek no X e no @odanigeek no Threads.