Os 3 critérios que eu uso pra decidir se um lançamento da Apple muda meu trabalho — publicados antes do evento de 9 de setembro

Ilustração: O Dani Geek
Na quarta, 9 de setembro, a Apple faz o evento “Surprise and shine”. Estou publicando antes os critérios que vou usar pra julgar o que sair de lá — e a data em que volto pra me cobrar com eles na mão.
Todo mundo vai cobrir o evento pelo espetáculo: dobrável, cor nova, preço. Eu não vou. O que me interessa não é o que a Apple anuncia, é o que entra no meu fluxo de trabalho — e essas duas coisas coincidem muito menos do que a cobertura sugere.
Então faço o contrário do normal. Publico o critério antes, com data, e depois volto pra aplicar. Se eu escrevesse isso no dia 10, seria análise pós-fato: eu já teria visto o resultado e ajustaria a régua sem perceber. Michael Mauboussin chama isso pelo nome certo numa entrevista ao Farnam Street, falando do diário de decisões:
“The value is that you document your thinking in real time and thus immunize yourself against hindsight bias—the pernicious tendency to think that you knew what was going to happen with more clarity than you actually did.”
Publicar antes tira de mim a opção de fingir depois que eu sabia.
O fato que sustenta os três critérios
Antes dos critérios, o histórico que os justifica — e ele tem número e sentença.
Em 10 de junho de 2024, na WWDC, a Apple anunciou a Apple Intelligence e uma Siri “mais pessoal”, com contexto pessoal e ação dentro e entre apps. Vinte e seis meses depois, essa Siri não existe.
| Quando | O quê |
|---|---|
| 10/jun/2024 | WWDC: Apple Intelligence e a “Siri mais pessoal” são anunciadas |
| out/2024 | iOS 18.1: Apple Intelligence estreia — inglês (EUA) |
| 07/mar/2025 | Apple adia oficialmente a Siri pessoal (9to5Mac, TidBITS) |
| 31/mar/2025 | iOS 18.4: Apple Intelligence chega em português do Brasil (Apple Brasil) |
| 12/jan/2026 | Apple fecha com o Google: Siri passa a rodar sobre um Gemini customizado (TechCrunch) |
| 17/fev e 30/mar/2026 | Betas do iOS 26.4 e 26.5 saem sem a Siri nova (MacRumors, MacRumors) |
| 05/mai/2026 | Apple aceita pagar US$ 250 milhões em acordo de propaganda enganosa (Gizmodo) |
| jun/2026 | WWDC 26: Siri AI anunciada para o iOS 27, beta ainda este ano, em inglês (Apple Newsroom) |
Duas contas que saem direto dessas datas: do anúncio até o português do Brasil, na Apple Intelligence, foram 294 dias. Da Siri pessoal anunciada até hoje: 26 meses e 25 dias, sem entrega.
Isso não é implicância com a Apple. É a base de cálculo de qualquer decisão que eu tome no dia 9.
Critério 1 — entra no meu fluxo, ou é mais um app?
A pergunta não é “isso é legal?”. É: o recurso aparece dentro do Atalhos ou do App Intents, onde eu posso encadear com o resto — ou vive só dentro do app da Apple, onde eu tenho que ir até ele?
A diferença é a diferença entre uma peça de sistema e uma demo. Hoje, o único ponto em que a IA da Apple encosta de verdade num fluxo montado é a ação “Use Model” no app Atalhos, disponível desde o iOS 18: ela chama o modelo do aparelho, o Private Cloud Compute ou o ChatGPT como um passo dentro de uma automação (Apple Support). Tudo o mais é ilha.
Na WWDC de junho a Apple anunciou “systemwide app actions” e a Siri lendo o conteúdo da tela. Se entregar, é o maior avanço de fluxo em dois anos. O “se” é o critério 2.
Há também um sinal mais fraco, e eu trato como sinal: em setembro de 2025 apareceu suporte incipiente a MCP no framework App Intents, encontrado no código dos betas do macOS/iOS 26.1. O próprio 9to5Mac descreveu como “very incipient”, podendo demorar até ser lançado ou sequer anunciado. Código em beta não é recurso. Anoto, não conto.
Critério 2 — em quanto tempo, de verdade?
Aqui aplico três descontos, em série. Não são pessimismo: cada um tem histórico.
Anunciado ≠ lançado. Siri pessoal, 26 meses. Em março de 2025 a porta-voz Jacqueline Roy disse que “vai levar mais tempo do que a gente pensava, e prevemos lançar no ano que vem” (9to5Mac, TidBITS). O ano que vem chegou.
Lançado ≠ lançado em português. A Apple Intelligence levou 294 dias do inglês ao PT-BR. E a frase mais importante do anúncio da WWDC 26, pra quem lê isto no Brasil, é esta: a Siri AI sai “as a beta later this year for users with a supported device set to English” (Apple Newsroom). Beta, depois, inglês. Não há data pública para o português do Brasil — e essa lacuna é, pra este público, a informação mais relevante do ano.
Lançado ≠ lançado no meu aparelho. A Apple Intelligence deixou de fora o iPhone 15 e o 15 Plus; só o 15 Pro e Pro Max entraram. A régua anunciada na WWDC 26 é iPhone 16 ou mais novo, 15 Pro/Pro Max, iPad mini (A17 Pro), iPad e Mac com M1 pra cima, Watch Series 9 pra cima.
O desconto tem preço de tabela desde maio: US$ 250 milhões de acordo em ação de propaganda enganosa, cerca de 36 milhões de aparelhos, US$ 25 a 95 por aparelho, para compras entre 10/jun/2024 e 29/mar/2025, no tribunal federal de San Jose. A Apple disse que resolveu o caso “to stay focused on doing what we do best” e sustenta que não fez nada de errado (Gizmodo, Fortune). Um aviso necessário: essa ação é nos Estados Unidos. Comprador brasileiro não recebe nada dela.
A pergunta operacional é boba de tão simples: existe data, com dia e mês? Se a resposta for “em breve”, “ainda este ano” ou “no ano que vem”, o valor que isso tem pra minha decisão hoje é zero.
Critério 3 — a que custo, somando tudo?
A cobertura fala de uma parcela do custo. São três.
O aparelho, em real. No ciclo anterior, o iPhone 17 base saiu por US$ 799 lá e R$ 7.999 aqui, com venda no Brasil a partir de 19 de setembro de 2025. Fator 10, redondo — a régua mental mais honesta que existe pro consumidor brasileiro.
| Modelo (linha 17) | Preço BR |
|---|---|
| iPhone 17 (256 GB) | R$ 7.999 |
| iPhone 17 Plus | R$ 8.999 |
| iPhone 17 Pro | R$ 10.999 |
| iPhone 17 Pro Max (2 TB) | até R$ 18.499 |
Aplicando o fator 10 aos rumores de 2026 — e isto é conta minha sobre rumor, não preço anunciado pela Apple: um Pro US$ 300 mais caro fica perto de R$ 14.000; um dobrável entre US$ 2.000 e 2.500 fica entre R$ 20.000 e R$ 25.000. Rotulo porque uma peça contra hype não pode publicar hype.
O custo de troca. IA nova exige aparelho novo. Quem tem um iPhone 15 comum não atualiza: troca. Esse é o custo escondido dentro da palavra “gratuito”.
A assinatura. iCloud+, Apple One, o que o recurso pressupõe pra funcionar direito. Vale lembrar que a própria Apple paga cerca de US$ 1 bilhão por ano ao Google pelo modelo por trás da Siri. Custo não some, muda de lugar.
A pergunta: quanto custa pra eu usar isso amanhã — aparelho, troca e assinatura somados — e em quantas horas de trabalho economizadas isso se paga?
Não é só implicância minha
Pesquisa CNET/YouGov com 2.407 donos de smartphone nos EUA, feita entre 29 de abril e 1º de maio de 2026: 12% citam recursos de IA como motivo pra trocar de aparelho, 13% trocariam por um dobrável. Contra preço (55%), bateria (52%) e armazenamento (38%) (MacRumors). Antes disso, uma pesquisa da SellCell no fim de 2024 já mostrava 73% dos usuários que experimentaram a Apple Intelligence achando que ela agregou pouco ou nada (MacRumors).
O evento é da Apple. A decisão é sua. E decisão sem critério escrito antes é torcida.
A cobrança: o que eu volto pra responder a partir de 10 de setembro
Seis perguntas de sim ou não, publicadas agora justamente pra eu não poder reescrevê-las depois:
| # | Pergunta | Como respondo |
|---|---|---|
| 1 | Algum recurso anunciado aparece como ação no Atalhos / App Intents? | Testo no aparelho depois do iOS 27 |
| 2 | Tem data com dia e mês, ou só “em breve”? | Página oficial do recurso |
| 3 | Tem português do Brasil no lançamento? | Apple BR / release notes |
| 4 | Roda no aparelho que eu já tenho? | Lista de compatibilidade |
| 5 | Preço em real anunciado pela Apple Brasil e data de venda aqui? | apple.com/br |
| 6 | Quantas promessas do ano passado foram entregues? | Comparo com a linha do tempo acima |
Uma coisa não está confirmada e eu registro antes: não se sabe se a Siri AI vai aparecer no palco. Se aparecer, o critério 2 ganha um teste ao vivo. Se não aparecer — depois de 26 meses, de um acordo de US$ 250 milhões e de dois betas sem ela — isso também é uma resposta. Os dois cenários já estavam previstos aqui.
O que me deixa curioso é a pergunta que vem depois desta. Este é o primeiro evento sob John Ternus, que assumiu como CEO em 1º de setembro de 2026 no lugar de Tim Cook (Apple Newsroom). Troca de comando costuma mudar o que uma empresa promete antes de mudar o que ela entrega. Se o intervalo entre anúncio e entrega encolher sob a nova gestão, meus três critérios ficam mais frouxos com o tempo — e isso seria uma ótima notícia. Se não encolher, eles ficam mais rígidos.
Volto no dia 10 com as seis respostas. Se você quiser propor um sétimo critério antes disso, me chame no X ou no Threads em @realrocklab — critério que eu não pensei ainda vale mais que qualquer previsão sobre o dobrável.