ODANIGEEK

Novo CEO na Apple: o que muda no seu Mac e no seu iPhone

Ilustração: O Dani Geek

John Ternus assumiu como CEO em 1º de setembro de 2026, seis dias antes do evento do iPhone. Para quem trabalha em cima de Mac e iPhone em português, a mudança que importa não é a cadeira — é o idioma da Siri nova e o requisito de hardware dela.

O currículo é a estratégia

Ternus está na Apple desde 2001. Entrou pelo time de product design, virou vice-presidente de engenharia de hardware em 2013, SVP em 2021, e a partir de 2020 conduziu a transição dos Macs de Intel para Apple Silicon. Tem 50 anos, segundo o 8-K que a Apple depositou na SEC.

A Apple trocou um chefe de operações por um chefe de hardware. Isso diz onde a empresa aposta que a IA vai morar: no chip que você já carrega, não no servidor de outra pessoa.

Ternus resumiu o próprio critério numa entrevista ao Tom’s Guide em abril de 2026, a Mark Spoonauer, ao lado de Greg Joswiak, dias antes do anúncio da sucessão: “We never think about shipping a technology. We always think about how can we leverage technology to ship amazing products.” Não entregamos tecnologia — entregamos produto que usa tecnologia. É uma frase de engenheiro de hardware, e ela ajuda a prever o que vem.

Três coisas não mudaram junto com a cadeira. Tim Cook não saiu da empresa: virou presidente executivo do conselho (Apple Newsroom, 20/abr/2026). Johny Srouji herdou a engenharia de hardware. E software e IA continuam com Craig Federighi — Amar Subramanya entrou como VP de IA em dezembro de 2025 reportando a ele, depois da saída de John Giannandrea. A Siri não passou a ser assunto do CEO novo.

O roadmap dos próximos dois anos já estava fechado

Aqui está o detalhe que o noticiário de posse costuma pular: o pipeline que Ternus entrega agora como CEO é o mesmo que ele desenhou como chefe de hardware. O dobrável de terça-feira não é decisão da gestão nova. É entrega de decisão velha.

Em 25 de agosto de 2026 a Apple lançou o M6 e o M5 Ultra. O M6 é o primeiro chip da casa em 2nm e estreou no Mac mini (US$ 899, R$ 10.799, envio a partir de 22/set); o M5 Ultra, quad-die, estreou no Mac Studio (US$ 5.499, R$ 69.999 no Brasil, até R$ 223 mil configurado). O mesmo levantamento da MacMagazine registra que o Mac mini novo ficou até 13,6% mais caro por aqui. Máquina de trabalho, ciclo atual, conta em real.

A decisão mais reveladora do ciclo não é o lançamento, é o cancelamento: não haverá M6 Pro, Max nem Ultra. O M6 base é o único da geração — inédito na história do Apple Silicon. A Apple encurtou o caminho para o M7, descrito como voltado a carga de IA: base no primeiro semestre de 2027, Pro e Max no segundo. Pular uma geração inteira de chips profissionais para chegar antes ao chip de IA é um movimento caro. Ninguém faz isso por acaso.

Gurman, na Bloomberg, documentou o outro lado da mesma história: vários produtos desse pipeline — os AirPods com câmera e o display doméstico em braço robótico — foram adiados porque o software de IA não ficou pronto. A leitura fácil seria “hardware contra software”. É pior: é hardware esperando o software.

A Siri AI sai em inglês, e o Brasil não está em nenhuma lista

Este é o ponto que decide alguma coisa na sua semana.

O texto da Apple é literal, e vale ler devagar (guia do iOS 27, MacRumors): “Siri AI works in English (Australia, Canada, Ireland, India, New Zealand, South Africa, UK, U.S.), and will expand to more languages in the future.” Oito locais de inglês, nominados um a um. O Brasil não aparece — nem na lista de idiomas, nem na de bloqueio geográfico (a União Europeia está fora no iPhone e iPad por causa do DMA, com o Mac liberado; a China está fora). Não é dedução minha: é a enumeração.

Cuidado com uma armadilha que já circula em português: até 3 de setembro de 2026, vários sites brasileiros afirmam que “o iOS 27 chegou com Siri AI em português do Brasil”. Não chegou. O iOS 27 nem saiu publicamente, e o comunicado da Apple lista só inglês.

O que existe em PT-BR desde março de 2025, com o iOS 18.4, é o Apple Intelligence — resumo de notificação, Ferramentas de Escrita, limpeza de foto (Apple Newsroom BR). A Siri reconstruída, com contexto pessoal e ação entre apps, é outra coisa e ainda não tem data em português.

Some a isso o requisito de hardware: iPhone 16 em diante ou 15 Pro/Pro Max, iPad e Mac com M1 ou superior. E um achado de código nos betas 7 do iOS, iPadOS e macOS 27 aponta fila de espera para liberar o recurso, com tempo estimado ajustável pelo servidor. É código encontrado por terceiros, não anúncio da Apple — trate como provável, não como certo.

O motor é do Google, e a Apple não diz isso em voz alta

Segundo a Bloomberg e a CNBC, a Apple paga cerca de US$ 1 bilhão por ano ao Google por um modelo Gemini de 1,2 trilhão de parâmetros. A precisão importa: o modelo do Google roda o summarizer e o planner — sintetizar informação e decidir como executar uma tarefa — hospedado dentro do Private Cloud Compute da Apple. Parte da Siri continua em modelos próprios. Dizer “a Siri virou Gemini” está errado.

E a palavra “Gemini” não aparece em nenhum dos comunicados da Apple de junho de 2026. O silêncio é escolha editorial de uma empresa que construiu marca em cima de processamento no aparelho.

O teste de dois minutos, no seu aparelho

Pega o iPhone agora e resolve isso antes de terça:

  1. Ajustes → Geral → Sobre → Modelo. Se não for iPhone 16 ou superior, nem 15 Pro/Pro Max, a Siri nova não é assunto seu neste ciclo. No Mac, qualquer coisa anterior ao M1 está fora.
  2. Ajustes → Geral → Idioma e Região. Se o sistema está em português — e para quem trabalha em PT-BR, deveria estar —, a Siri AI não vai aparecer no lançamento.
  3. Decide o custo da troca. Virar o sistema para inglês adianta o acesso e leva junto teclado, corretor, formato de data e todo o resto do sistema. Para quem escreve em português o dia inteiro, o preço costuma ser maior que o ganho.

O que observar depois de terça

O evento é 9 de setembro, 10h no Pacífico (14h de Brasília), no Apple Park: iPhone 18 Pro, o primeiro dobrável (estimativas convergem em torno de US$ 1.999) — e nenhum iPhone 18 base, que junto com os modelos mais acessíveis ficou para o primeiro semestre de 2027.

Nada disso muda sua decisão de ferramenta hoje. Duas coisas mudam: idioma e requisito de hardware, e nenhuma das duas depende de quem senta na cadeira.

O sinal que vale acompanhar é mais lento. Se a Apple der uma data de PT-BR para a Siri no dia 9, é a manchete brasileira que ninguém está esperando. Se não der, a próxima pista real chega em 2027, com o M7: um chip pensado para carga de IA num aparelho que roda um planner alugado do Google. Se o silício da Apple ficar bom o bastante, o contrato de US$ 1 bilhão por ano vira despesa temporária. Se não ficar, vira dependência estrutural — e aí a pergunta muda de “quando chega em português” para “de quem é a IA que responde no seu iPhone”.

Fica uma dúvida honesta, que eu ainda não resolvi: você viraria o sistema para inglês para ganhar seis meses de Siri nova? Conversa no @odanigeek no X e no Threads.