Minha operação com IA nunca usou MCP. O que isso me deu e o que me custa

O Dani Geek — arte original
Em 20 de setembro de 2026 uma thread chamada “Why MCP Was Always a Bad Idea” voltou ao topo do Hacker News. Aqui dentro o agente roda por linha de comando e fala com o Notion por API desde o começo, então dá pra descrever o desenho real, com a conta que ele cobra.
O que o protocolo foi anunciado pra resolver
A Anthropic anunciou o Model Context Protocol em 25 de novembro de 2024. O problema descrito no anúncio é de integração: modelos presos atrás de silos de informação e sistemas legados, com cada nova fonte de dados exigindo a própria implementação sob medida. A promessa era trocar N×M integrações por um protocolo só. O primeiro release do SDK TypeScript, a versão 0.4.0, apareceu no npm em 11 de novembro de 2024, duas semanas antes do anúncio público, segundo o levantamento do HackerNoon.
Registro isso porque a versão que circulou no HN é outra: a de que o MCP nasceu para modelos que ainda não sabiam escrever nem rodar código, e que envelheceu quando o modelo aprendeu a abrir um terminal. É uma leitura retrospectiva: o texto original justifica o protocolo pelo isolamento de dados.
A crítica já tinha seis meses quando chegou ao topo
O mesmo levantamento do HackerNoon mostra que a posição “um agente com terminal faz quase tudo que o MCP faz, com mais flexibilidade e por uma fração dos tokens” está registrada desde março de 2026. Os incômodos citados por quem defende essa posição:
- schemas de ferramenta ocupando a janela de contexto antes de o usuário digitar a primeira palavra;
- modelo de segurança vazando nas bordas, sobretudo em autorização;
- a observação mais desconfortável, de que um protocolo substituível por um shell script não se parece com infraestrutura.
A thread de 20 de setembro girou em torno de dois eixos, ponte JSON-RPC rasa e segurança, conforme o comentário do Simon Willison e o registro do agregador Alto. Antes dela o HN já tinha discutido “MCP is dead?” e “MCP is dead; long live MCP”. O ciclo se repete com frequência suficiente pra que mais um anúncio de óbito não informe muita coisa.
Como a operação roda aqui
Nenhum MCP server. O agente é chamado em modo headless, por linha de comando, e o comando é montado num único ponto do código. Quando a chamada nasce em cinco lugares, cinco lugares podem esquecer uma restrição.
As ferramentas que o agente pode usar vão numa flag que restringe de verdade o conjunto disponível. Existe uma flag parecida que apenas pré-aprova o que o modelo pedir, sem limitar nada, e trocar uma pela outra é o tipo de erro silencioso que só aparece quando o agente faz algo que ninguém esperava. Aqui a lista é curta e cabe numa linha que eu leio antes de rodar.
Notion é integração própria, em um módulo só, com o token fora do repositório. Buffer, Search Console e as APIs de métricas seguem o mesmo formato: um módulo por superfície externa, cada um removível numa manhã. Toda operação que muda estado escreve auditoria, e o padrão de qualquer coisa que age no mundo é dry-run, com opt-in explícito pra executar.
Não cheguei nesse desenho prevendo o destino do MCP; cheguei por restrição. Ferramenta a menos é superfície de erro a menos — e uso IA pesado aqui dentro: quem responde pelo que quebra é quem desenhou, então o conjunto de coisas que podem quebrar tem que caber na cabeça.
A conta que esse desenho cobra
Essa é a parte que costuma sumir dos textos que defendem CLI mais API, e é a parte que decide se o desenho serve pra você.
Não existe discovery. No MCP, um servidor se apresenta e o modelo descobre o que ele oferece. Aqui, cada integração é código meu. Quando eu quero que o agente faça algo novo com o Notion, eu escrevo a função, escrevo o teste e faço um commit. Ferramenta nova não é configuração, é release.
Servidor de terceiro não se pluga. Alguém publica um MCP server decente pra uma ferramenta que eu uso e eu não ganho isso de graça. Ou eu reimplemento a parte que interessa, ou eu fico sem.
Quando a API muda, o conserto é meu. Não existe camada intermediária absorvendo a mudança. Já paguei esse pedágio mais de uma vez.
Em troca: o contexto não carrega descrição de ferramenta que eu não uso, o conjunto de ações possíveis é pequeno o bastante pra caber na cabeça, e cada integração tem um dono óbvio no código quando o alerta toca às três da manhã.
O protocolo foi reescrito dois meses atrás
O argumento do envelhecimento esbarra numa data. Em 28 de julho de 2026 o MCP lançou uma release que quebrou compatibilidade e removeu o handshake e a camada de sessão, exatamente os pedaços que concentravam as reclamações de peso desnecessário. Segundo o HackerNoon, os obituários escritos em março foram sendo retratados sem alarde — em alguns casos por quem os escreveu. Quem quiser o outro lado do debate, com números de adoção, encontra em Is MCP Dead?, do Growth Method. A linha do tempo neutra está na Wikipédia.
Dizer que um protocolo envelheceu enquanto ele está sendo reescrito é uma avaliação sobre a versão que você conheceu.
As quatro perguntas que eu faria antes de instalar qualquer coisa
- Quantos clientes diferentes precisam falar com as mesmas fontes? Um cliente só, como no meu caso, tira quase toda a vantagem do protocolo.
- As ferramentas que você quer são de terceiros e estáveis, ou são suas e mudam toda semana? Reimplementar integração alheia é desperdício; proteger a sua com um protocolo genérico também.
- Quem autoriza o que o agente faz? Se a resposta ainda é “o modelo decide”, a escolha de transporte não resolve o problema.
- Você consegue listar de cabeça tudo que o agente pode executar? Se não consegue, você já perdeu uma coisa que vale mais do que conveniência.
O fio que fica
Se o modelo realmente descobre um CLI sozinho, o que resta pro protocolo é a camada chata: quem autoriza, quem registra, quem assina. E essa parte ninguém substitui por shell script. A pergunta que eu quero investigar na próxima peça é essa, autorização e auditoria em operações com agente, porque é onde o meu desenho também tem buraco: a auditoria aqui é minha, escrita por mim, e ninguém além de mim a revisa.
Quem roda MCP em produção há mais de seis meses tem uma informação que eu não tenho: o que quebrou na release de 28 de julho, e quanto trabalho deu consertar. Me conta no X, @odanigeek. Se der material, vira texto com o caso completo e o crédito de quem contou.
Fontes
- Anthropic, Introducing the Model Context Protocol, 25/nov/2024
- Mayank Choubey, MCP Was Declared Dead, HackerNoon, 20/ago/2026
- Simon Willison, comentário sobre a thread do HN, 20/set/2026
- Alto, Why MCP Was Always a Bad Idea
- Hacker News, MCP is dead? e MCP is dead; long live MCP
- Growth Method, Is MCP Dead?
- Wikipédia, Model Context Protocol