Como montar um prompt de imagem que preserva o seu rosto

Antes/depois gerado pela marca: retrato sintético (xAI/Grok) transformado no Gemini com o prompt da própria peça, nenhuma pessoa real envolvida
A trend dos anos 80 entregou um comando pronto para copiar e colar. O que ela não entregou foi o mapa das partes, que é o que faz o mesmo pedido funcionar em qualquer imagem onde você precisa continuar sendo você.
A trend, e o ponto exato em que ela para de servir
Feriadão de setembro de 2026, e o feed encheu de gente com cabelo armado, ombreira, jeans de cintura alta e grão de filme. O procedimento é simples. Você sobe uma selfie numa IA conversacional, pede uma versão sua “como se vivesse nos anos 80” e recebe o retrato de volta. O InfoMoney publicou o passo a passo em 08/set, com o comando sugerido: “Com base na foto enviada, crie uma imagem ultrarrealista de como eu seria se vivesse nos anos 80. Adicione um penteado típico da época, roupas clássicas com cores marcantes ou jeans de cintura alta…”
Funciona. E é aí que termina.
A Exame, no mesmo dia, disse a parte que interessa. Comando único não existe. O que existe é um conjunto de componentes, e ela lista cinco (referência à época e à fotografia dos anos 80, cabelo volumoso, roupa típica, grão de filme com cores desbotadas, instrução de preservar rosto e expressão). É a decomposição certa, e ainda faltam duas peças. Justamente as duas que a documentação oficial do Google trata como prioritárias.
Correção rápida antes de você perder a tarde
A matéria original cita Gemini, ChatGPT e Claude como opções para gerar a foto. O Claude não gera imagem. Ele lê e descreve imagens muito bem, mas não produz nenhuma. Quem seguir a lista ao pé da letra vai subir a selfie, pedir o retrato e ficar olhando para uma resposta em texto.
Aqui eu falo do lado Google, que é o que apurei a fundo. Como o gerador da OpenAI se comporta na preservação de identidade, e o que ele faz com a foto que você envia, fica para uma rodada de teste própria. Não vou afirmar o que não medi.
A foto que você sobe já é metade do prompt
Esse é o achado que muda o resultado mais do que qualquer palavra que você digite. A doc do Gemini, na parte de edição de imagem existente, diz: “Provide an image and describe your change. The model will match the original image’s style, lighting, and perspective.”
O modelo herda estilo, luz e perspectiva da sua foto. Se você mandou uma selfie em contraluz de janela, o retrato dos anos 80 vem em contraluz. Se mandou uma foto de baixo, com flash duro de banheiro, ele vai reproduzir aquele ângulo e aquela luz e depois tentar encaixar a ombreira em cima. Você perdeu duas das partes mais importantes do pedido antes de escrever a primeira palavra.
Regra operacional: escolha a foto de entrada com o mesmo critério com que você escolheria uma foto de perfil. Rosto inteiro, luz difusa, olhando para a câmera, nada cortado.
As sete partes de um prompt que preserva identidade
Estas são as peças nomeáveis. Você não precisa de todas em todo pedido, mas precisa saber qual delas está faltando quando o resultado sai estranho.
- Sujeito herdado da foto. Referência explícita à imagem enviada, não uma descrição sua feita por você.
- Época e referência fotográfica. “Anos 80” é fraco sozinho. “Retrato de estúdio dos anos 80” já direciona o modelo para um conjunto de imagens muito mais específico.
- Guarda-roupa e cabelo. Jaqueta jeans, blazer com ombreira, franja armada. É o que a imprensa cobriu bem.
- Luz. Softbox pela esquerda, luz de janela, flash duro. Diga qual.
- Plano, ângulo e lente. Retrato médio, altura dos olhos, 85mm.
- Material da imagem. Grão, saturação, textura.
- Trava de identidade. A instrução explícita de manter traços faciais e expressão da pessoa original.
Luz e lente, as duas que ficaram de fora de toda matéria
A doc oficial do Gemini dá um template para foto realista que é quase um formulário:
“A photorealistic [type of shot] of a [subject description] in a [setting description]. [Description of the light]. Shot from a [camera angle] with a [lens type].”
Tipo de plano, cenário, luz, ângulo de câmera, lente. Compare com os cinco componentes da Exame e você vê o buraco na hora. Nenhuma matéria mandou o leitor descrever a luz nem a lente. Luz e lente são o que dá a data à foto: 1986 em vez de “antigo”.
Eu rodei o pedido montado com as sete partes. A imagem que abre o post é o antes e o depois do teste, sem retoque na saída (o teste usou um retrato sintético gerado no Grok, gente que não existe; rosto de verdade a gente só sobe sabendo o que está trocando, e a seção logo abaixo explica o que é):
Com base na foto enviada, crie um retrato fotorrealista de meio corpo da mesma pessoa, em um estúdio dos anos 80 com fundo de papel colorido. Cabelo volumoso com franja armada, jaqueta jeans com ombreira. Luz suave de softbox pela esquerda, com preenchimento fraco à direita. Enquadramento na altura dos olhos, lente de 85mm, fundo levemente desfocado. Textura de filme fotográfico, cores um pouco desbotadas. Preserve exatamente os traços faciais e a expressão da pessoa da foto original.
É mais longo. É essa a ideia. A única regra que a doc explicita, em texto, é: “The more specific you are, the more control you have over the results.” Quanto mais específico o pedido, mais controle sobre o resultado. E todos os exemplos oficiais são frases descritivas corridas, escritas como quem descreve uma cena para outra pessoa. Nenhum deles é uma lista de palavras-chave separadas por vírgula.
Qual Nano Banana? O apelido virou família
A trend é vendida na imprensa como “Nano Banana”. O apelido continua valendo. O que envelheceu é qual Nano Banana. O original é o Gemini 2.5 Flash Image, lançado em agosto de 2025 tendo como manchete exatamente a consistência de identidade, ou seja, manter a semelhança de uma pessoa entre poses, iluminações e cenários (Google Developers Blog). Hoje ele é o legado da família. A doc recomenda o Gemini 3.1 Flash Image (Nano Banana 2), com o Gemini 3 Pro Image (Nano Banana Pro) acima dele e o 3.1 Flash Lite Image como alternativa leve.
Vale saber os limites se você for além da selfie única. O 3.1 Flash Image aceita até 10 imagens de referência de objeto, o 3 Pro Image até 6, e o 3.1 Flash Lite Image até 14, com duas ressalvas: ele não faz grounding no Google Search e entrega só resolução 1K. O 3.1 Flash Image vai de 512px a 4K; o 3 Pro Image, de 1K a 4K. Para consistência de personagem, são até 4 imagens da mesma pessoa no 3.1 Flash Image e 5 no 3 Pro Image.
Um detalhe de honestidade: rodei com “textura de filme, cores desbotadas” no pedido e o modelo praticamente ignorou os dois: a saída acima está saturada e limpa. É recomendação de imprensa, não da doc, e neste teste não pegou. Ainda quero medir isso direito antes de cravar. Aqui não se publica o que não foi testado.
O que você entrega junto com a selfie
Duas coisas que não aparecem em nenhuma legenda de trend.
A primeira: “All generated images include a SynthID watermark.” Toda imagem gerada sai com marca d’água invisível a olho nu e detectável por ferramenta.
A segunda é sobre a sua foto. No app Gemini, com o Keep Activity ligado, a retenção padrão é de 18 meses, ajustável para 3 meses, 36 meses ou tempo indefinido. E a Central de Ajuda é direta: “A subset of chats are reviewed by human reviewers (including Google’s trained service providers) to help improve Google services.” Com o Keep Activity desligado, as conversas ficam 72 horas e não treinam os modelos (desde que você também não mande feedback no chat), mas o que já passou por revisão humana é guardado por até três anos, desconectado da sua conta. Isso vale para o app do consumidor. A política de dados da API é outra história, e eu não apurei essa parte.
A Exame registra que especialistas em privacidade recomendam checar política, tempo de armazenamento e uso para treino antes de enviar fotos a plataformas de terceiros. Concordo, com uma nuance. Nada disso é motivo para não brincar com a trend: é o preço dela, e vale saber quanto é.
O fio que sobra
A trend é o uso de massa mais visível, no Brasil, de uma capacidade que a geração anterior de modelos não tinha. E ela serve para muito mais do que fantasia de época. Se o modelo mantém a mesma pessoa entre poses, luzes e cenários, dá para ter foto de perfil coerente em cinco superfícies diferentes ou thumbnail de vídeo com o mesmo rosto toda semana, sem sessão de fotos.
Duas coisas ainda estão em aberto aqui: o teste controlado do grão de filme (uma rodada não crava nada) e a comparação com o gerador da OpenAI, incluindo o que ele guarda das suas fotos. Vão virar peça.
Se você rodou a trend: o que o modelo mudou no seu rosto sem você pedir? Me conta no X ou no Threads.
Fontes
- InfoMoney, 08/set/2026: Trend dos anos 80, qual prompt usar
- Exame, 08/set/2026: Trend da foto dos anos 80 com IA viraliza nas redes
- Google AI for Developers: Image generation
- Central de Ajuda do Gemini: dados e retenção
- Google Developers Blog: Gemini 2.5 Flash Image
- blog.google: atualização do modelo de edição de imagem